Gordofobia, feminismo e pautas LGBTQIA+: Conheça a voz potente de Maíra Garrido

Aos 30 anos, a carioca fala sobre sua carreira, inspirações e conquistas

Single Funk das Minas faz parte da playlist editorial Queer Brasil, da Deezer Brasil
Single Funk das Minas faz parte da playlist editorial Queer Brasil, da Deezer Brasil - Instagram: mairagarridoo

por Redação/FC
Publicado em 29/06/2021 às 11:23
Atualizado às 11:23

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Conhecida pela voz doce e as batidas suaves, recorrentes da MPB, a carioca Maíra Garrido se destacou com o single Funk das Minas, criado em 2017 e que hoje faz parte da playlist editorial Queer Brasil, da Deezer Brasil, se afirmando com um grito de guerra para a atual situação do país. 

Aos 30 anos, a cantora acredita que o artista se manifesta de acordo com a época em que vive e é desta forma que ela levanta as bandeiras do feminismo, gordofobia e os direitos da população LGBTQIA+ em suas canções. 

Inspirada pela avó e pela mãe, ela atribui sua garra às duas mulheres. "Elas me deram de presente o ímpeto de fazer o que considero certo, a ligação, com a minha intuição, e a certeza que eu sou capaz de me reiventar sempre, só de terem vivido suas vidas dessa mesma forma". 

Em entrevista exclusiva ao site Alto Astral, Maíra Garrido conta sobre o seu trabalho, desafios e conquistas. "Eu nasci numa família extremamente musical. Minha mãe cantava na noite e, embora não tenha seguido carreira, sempre me incentivou nas artes em geral. Participei por muitos anos do coral do colégio, e com 14, 15 anos, comecei a cantar num coro semi profissional chamado Cia. Bachiana Brasileira, onde me apresentei em diversas salas pelo estado do Rio de Janeiro, como o Teatro Municipal e a Sala Celília Meirelles" iniciou. 

Maíra
Maíra prestou vestibular para Música e Engenharia. Crédito: @mairagarridoo

No terceiro ano do ensino médio, a artista prestou vestibular pra Música, com bacharelado em Canto Lírico e Engenharia. Passou nos dois! Mas a mãe, responsável pela matrícula, não a matriculou em engenharia porque, segundo ela, a filha não seria feliz sendo engenheira. "Acho que nunca vou saber se teria sido uma engenheira feliz, mas certamente sou muito realizada sendo musicista", contou. 

Questionada sobre o momento mais desafiador da carreira, Garrido pontua que ser artista no Brasil é desafiador, ainda mais sendo uma pessoa que foge dos "padrões" . "Se eu tivesse que eleger um único momento diria que foi a gravação do clipe da música música Meu Próprio Deus, que aconteceu 14 dias após o falecimento da minha avó, a quem eu era muito ligada", explicou.

Ela recorda que foram dois dias de gravação, das 20h às 5h da manhã e que, na sequência, não conseguia dormir, chorava o dia todo e colocava compressa de gelo nos olhos para para desinchar e ir gravar. "Uma grande loucura, porque eu também ainda não tenho uma equipe enorme, então muito da produção era eu mesmo que estava fazendo. Eu passava o dia resolvendo problemas, chorando e tentando manter toda a equipe unida e motivada. Foi uma gravação bem difícil", celebra vitoriosa. 

Influência LGBTQIA+

Sobre visibilizar a pauta LGBTQIA+ em seu trabalho, a cantora diz que não consegue deixar isso de lado. "Quando eu escrevo, eu falo das minhas percepções sobre as mais variadas coisas no mundo. Coisas que são mais sofridas, coisas que são mais leves. Todas as minhas vivências vão acabar tendo o filtro de uma pessoa LGBT, com certos traumas e cicatrizes que podem não doer mais, mas moldam a forma como eu recebo e entendo as coisas", conta. 

Maíra
Aos 30 anos, Maíra é cantora, compositora e atriz LGBT. Crédito: @mairagarridoo/@juliaassisphoto

"A música tem um potencial democrático e de união absurdo. Quantas vezes você já se pegou cantarolando uma letra que você não tinha nunca parado para prestar atenção e, quando você vê, o significado é algo que te leva a uma grande reflexão sobre uma gama de coisas? Acho que é aí que a gente pode hackear o sistema, sabe? Em termos de diversidade de corpos cantantes, letras, melodias e técnicas", explica ao citar a contribuição musical nas discussão da gordofobia e da lgbtfobia. 

Influência musical 

E se a música foi favorável no processode aceitação ao corpo, Maíra revela que nunca havia parado para pensar nisso, mas que conta com dois olhares para a questão. "O primeiro é que cantar sempre foi uma coisa que eu amei muito fazer e sempre chamei atenção por isso. Então, de certa forma, ser cantora me ajudou, sim, a encarar o fato de que eu estaria no palco com frequência, e teria que me expressar via voz e corpo, e enquanto eu não estive em paz com quem eu sou inteira, eu não conseguia nem cantar direito. Por outro lado, a indústria da música não me ajudou em nada - e ainda não ajuda. Se você for olhar agora, as 10 artistas mulheres mais tocadas em 2020, no mundo*, serão 10 mulheres muito magras e, em sua maioria, brancas, gerando a sensação inevitável de não pertencimento nesse mercado. Quem fez essa pesquisa foi a produtora musical das últimas três músicas que eu lancei, a Nelí, que também é uma mulher gorda, e ela ainda adiciona mais uma camada a esse debate que torna tudo ainda mais delicado, porque ela também é mãe, então a representatividade nesse caso chega a quase zero". 

Ao final, ela fala sobre os planos para o futuro. "Agora, no segundo semestre de 2021, eu vou lançar meu primeiro álbum, com 5 faixas inéditas que também vai ser um EP visual. Esse EP será totalmente voltado para representar a comunidade LGBT e as músicas contam um pouco da minha trajetória para o autoamor, falando desde a minha própria relação com a minha pansexualidade, abordando términos, relações abusivas - até porque precisamos muito falar disso no universo lésbico -, e a força da união da nossa comunidade. Eu estou muito empolgada! Mal posso esperar para que todes possam ouvir! O EP tem um feat com uma cantora lésbica por quem eu tenho imenso carinho e admiração, e a parte visual também está em andamento para a estreia no ano que vem", encerra. 

Fonte: Alto Astral 

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