"A melhor forma de combater o machismo foi rimar e superar", diz Lica Tito, pioneira no rap feminino gaúcho

No Dia Internacional da Igualdade Feminina, celebrado nesta quinta (26), batemos um papo com a cantora; confira

Com grande repertório musical, Lica Tito já se prepara para novos projetos.
Com grande repertório musical, Lica Tito já se prepara para novos projetos. - Divulgação/Acervo Pessoal

por Caroline Ferreira
Publicado em 26/08/2021 às 10:45
Atualizado às 10:45

COMPARTILHEFacebook Famosos e CelebridadesPinterest Famosos e Celebridades

Representando a mulher gaúcha, Lica Tito vem da Serra e é dona de um grande repertório musical onde o hip hop e as suas vertentes correm diariamente em suas nas veias.

No Dia Internacional da Igualdade Feminina, celebrado nesta quinta-feira (26), a ex-vocalista da banda Groove James e fundadora do pioneiro grupo feminino de rap La Bella Máfia, bateu um super papo com a gente sobre sua carreira, o cenário do estilo, ainda tão masculinizado, a torcida por dias melhores e algumas novidades (alô, spoiler!). Confira:

Lica Tito
Crédito: Divulgação 

Amor de família!

Aos 42 anos, Lica é "doble chapa", ou seja, dona duas nacionalidades. Filha de uma brasileira e um DJ uruguaiano, ela esteve conectada com a música desde o berço. "Meu pai sempre foi envolvido com eventos e música e, para além da influência paterna, minha mãe também sempre amou música. Enquanto ela ouvia Caetano, Chico Buarque, Elis Regina, ele escutava Michael Jackson, Stevie Wonder, Barry White, e assim cresci com dois universos musicais", inicia.

Na adolescência, colocava a turma para dançar. Ia na porta de cada um dos vizinhos pedindo que os pais deixassem os filhos irem na festa organizada por ela. "Incomodava a minha mãe para fazer uns flyers à mão comigo e claro, eu era a DJ na maioria dos eventos", recorda-se aos risos.

Conexões

Em 1992, aos 14 anos, andando de skate e assistindo as manobras em fitas de VHS, recheadas de rap gringo como trilha sonora, Lica conheceu Beastie Boys, House of Pain, Wu tang clan e Cypress Hill, grandes nomes do cenário internacional. "Para o sk8 eu não tinha muita aptidão (risos), mas para as rimas... eu já escrevia nos meus caderninhos, antes mesmo de entender que eu fazia rap", conta. 

"A primeira vez que eu rimei em uma festa foi em 1995 ou 96, o DJ Hum estava tocando e abriu o mic para quem quissesse rimar, e a melhor rima levaria um CD de beats (bases instrumentais para o rap). Me joguei, morrendo de medo e, para minha surpresa, fui a vencedora".

Próximo a esse período, Lica entrou para o grupo Justiça Eterna e, ao lado das melhores amigas da época, montou a banda THC Positivo. Já em 1998, conheceu os meninos da Groove James que a convidaram para integrar a banda, onde ficou até 2005. "Fizemos vários shows e lançamos álbuns bem reconhecidos pelo sul do Brasil. Com a banda, nós passeávamos por vários estilos musicais para além do rap, e meu coração era muito entregue ao Ritmo e Poesia, o que me levou a ter uma vida musical múltipla, onde o Hip Hop ocupava ainda mais minha mente e coração", explica. 

Muito além do rap propriamente dito, ela também se envolveu com a sua cultura num todo. Desde a produção de eventos com foco na visibilidade dos elementos, programas em rádios comunitárias sobre a cena do hip hop gaúcho, à uma coluna na revista Rap Brasil.

"Atuei por muito tempo ministrando oficinas na Febem, e escolas públicas. Fui convidada pelo Festival de Música de Londrina quando o RAP foi reconhecido como música pela primeira vez e, ainda como oficineira, estive com indígenas no festival de Hip Hop da Floresta em Rondônia, que reuniu todos os estados onde a Floresta Amazônica está presente e lá fiz a abertura de um show para o Racionais MC's". 

E não para por aí, Lica dividiu o palco com grandes nomes. Ja Rule e Akon integram a lista, além de turnês internacionais pela Alemanha, Uruguai, Argentina, Espanha, França e Japão, onde foi integrante da banda de Ronaldinho Gaúcho.

Lica e Ronaldinho
Crédito: Divulgação

"Um dos mais momentos  mais importantes foi fazer o primeiro show musical dentro da ONU, em Nova York, nos Estados Unidos, no evento da UNIFEM pelo fim da violência contra a mulher. Eu tive a honra de representar as mulheres latino americanas como atuante em políticas públicas gênero, inclusive cantando "Peleia", que gravei com a banda Ultramem e outros MC's importantes na cena gaúcha. A música marca um momento de apropriação de nossas raízes musicais, tanto em letra quando em ritmo", explica.

Lica na ONU
Crédito: Divulgação

Sobre a participação feminina na cena do hip hop, ela lembra que no início de sua carreira não conhecia muitas mulheres no Brasil que cantassem rap. As referências eram internacionais, como Queen Latifah, MC Lyte e Da Brat. "Foi bem desafiador, acho que como um processo natural eu me masculinizei na forma de vestir, para deixar bem estabelecido que minha presença ali era voltada para a música e até mesmo porque as poucas gringas também usavam roupas largas, então essa era a referência", comenta. 

Não satisfeita, Lica criou o La Bella Mafia, um grupo destinado a mudar essa realidade - ainda tão masculinizada. "Cada mulher que eu via em um festival cantando ou rimando quase escondida no palco, eu chegava e convidada para fazer parte da banda. Nosso grupo viajou o país, estivamos em grandes eventos e marcados uma virada do feminino dentro do RAP nacional. Olhando para esse período penso que a melhor forma que tivemos para combater o machismo foi realmente fazer, rimar, superar, surpreender, profissionalizar e não deixar falarem de nós além dos elogios a nossa musicalidade".

Entre suas referênciais musicais, Erykah Badu, Elis Regina e Amy Whinehouse, além do soul e o R&B como um todo e a música negra brasileira que vai de Jorge Ben, Tim Maia, Black Rio, até Paula Lima, Criolo, Rael, entre outros. 

E por falar em Amy Whinehouse... Lica fazia tributo à artista desde 2007, quando a banda Império de Lã a convidou para um show do álbum Back to Black. O que era para ser apenas uma apresentação, virou parte considerável de sua vida musical. "Chegando no Rio, para onde me mudei em 2009, só voltei a fazer o tributo a pedido de amigos que sabiam desse meu trabalho com a obra dela. De lá para lá tenho feito muitos shows em sua homenagem e o Bloco da Amy nasceu exatamente dessa relação profunda. Oficializamos e colocamos o bloco na rua, indo além das marchinhas clássicas. É um verdadeiro passeio pela cultura rítimica brasileira com um pé no 'Camden Town' Londrino", conta. 

Amy Whinehouse
Crédito: Divulgação

Carreira solo com... The Best of Até Agora

Seu primeiro álbum foi lançado em 2017, a partir de uma campanha de financiamento coletivo e de forma independente, reunindo composições gravadas durante oito anos. O repertório abraça toda a sua pluralidade, refletindo seu amadurecimento ao longo do tempo.

Lica Tito
Crédito: Divulgação

Pedido de medalhista olímpica? Claro que sim!

Recentemente, a judoca brasileira Mayra Aguiar escolheu a canção "Peleia" no Fantástico para comemorar sua medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio, e é claro que o coraçãozinho de Lica bateu ainda mais forte. "Nossa, foi emocionante. Na música falamos de superação, de não se entregar, não fugir da disputa que a vida traz. Quando vi que a Mayra estava superando sua sétima operação, fiquei espantada. Esse é o espírito que deu vida a "Peleia". Definitivamente a vitória deu vida para nossa canção", comemorou.

Novos ares 

Desde os 23 anos, Lica também se dedica a astrologia como um processo de autoconhecimento. Em 2013 iniciou os estudos de maneira formal e hoje estuda astrologia tradicional pela Escola Saturnália. "Eu 2019 tive uma paralisia vocal, sem previsão de voltar a cantar, inclusive poderia ficar para sempre com as pregas paralisadas. Foi neste período que mergulhei ainda mais na astrologia e, quase em planejar ou perceber, passei a ler mapa natal profissionalmente. Essa viradinha de chave veio antes da pandemia, mas em um período de quarentena e nasceu o Astrologando com Lica Tito para conversar, ensinar e compartilhar. 

... O que vem por aí

"O futuro já está apontando no horizonte. Estou reorganizando as canções inéditas e vem gravações novinhas. O Bloco da Amy está com um pé na avenida, aguardando a situação pandêmica no país para matar a saudade acumuluda do carnaval. E a vida astrológica está de venda em popa. E ah, estou fazendo faculdade de Filosofia", finaliza.

Leia também