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“Arte é política por natureza”, diz Elisa Volpatto, atriz de “Bom dia, Verônica”

Em entrevista exclusiva, Elisa Volpatto, atriz de “Bom Dia, Verônica”, comenta a potência da série com abordagens reais

Elisa Volpatto
Confira a entrevista completa com Elisa Volpatto, que vive Anita em "Bom dia, Verônica", da Netflix - Crédito: Divulgação

Potência. Talvez essa seja uma das melhores palavras para definir Elisa Volpatto. A atriz, que estrela como Anita Berlinger em “Bom dia, Verônica”, da Netflix, vem acumulando, ao longo da carreira, produções que apostam em temáticas sensíveis, necessárias e urgentes.

Violência doméstica, feminicídio e crimes ambientais, por exemplo, são algumas das narrativas que dão o tom às suas próprias movimentações, iniciadas ainda em 2016, com o espetáculo solo “PULSO”, inspirado na vida e obra da escritora Sylvia Plath – invisibilizada pelo contexto patriarcal e machista em que estava nos anos 1950.

Pois bem, de lá para cá emendou “Assédio”, do Globoplay, com base na história do médico Roger Abdelmassih, acusado de abuso sexual de paciências; “Vítimas Digitais”, do GNT, com crimes de exposição no ambiente virtual e “Aruanas”, que coloca em cheque o ativismo e a preservação do meio ambiente.

“Eu venho de uma sequência de trabalhos que abordam esses temas e é até engraçado como esse assunto vem me atravessando há muito tempo e de diversas formas. Quando veio ‘Bom dia, Verônica’ eu pensei: ‘nossa, de novo!’. Parece que é algo que eu realmente preciso falar sobre”, conta com exclusividade ao Famosos e Celebridades.

Longe de câmeras e dos palcos, Elisa é uma feminista da vida real, com posicionamentos e demandas bem definidas. Para ela, a série diz muito sobre o Brasil atual.

“Hoje a gente enxerga na figura do nosso próprio presidente uma imagem misógina, que parece estar contra as mulheres. Seja nas atitudes ou nas palavras. É muito gritante! E eu realmente não sei como existe um apoio, sendo que temos diversas situações do dia a dia, como essas que são retratadas na produção, apontando para esse modelo de agir do masculino diante do feminino”, desabafa.

Elisa Volpatto
Elisa Volpatto vive Anita em “Bom dia, Verônica”, da Netflix – Crédito: Divulgação

2ª temporada apresenta uma Anita mais vulnerável

Alerta de spoiler! Quem já maratonou a nova leva de episódios deve ter notado que a temporada busca, que ainda de forma leve, afastar a personagem do estereótipo de vilã, dando liberdade para que ela crie uma empatia com o público – uma vez que Anita também foi inserida no quadro de vítimas do sistema.

“É muito bom ver o retorno das pessoas e o quanto a gente conseguiu estreitar essa conexão. Na primeira fase não há brecha para as vulnerabilidades. A gente vê no início uma pessoa que está o tempo inteiro sendo hostil. E agora ela se mostra muito mais como uma ‘soldada do que chefe de algo’. Ela chega mais propícia a se afetar com todas as coisas que a Verônica está descobrindo e é atravessada pelas questões de abuso. E quando ela estava ali, no ponto da redenção, acontece uma fatalidade”, conta.

Violência de gênero, feminicídio e corrupção

Diante de duas temporadas com abordagens referentes à violência de gênero, corrupção e diversos tipos de abusos de poder, Elisa pontua ainda o quanto se faz necessário rupturas e diálogos acessíveis para que exista uma mudança real no modelo de sociedade.

“Eu torço muito para que ‘Bom dia, Verônica’ sirva como exemplo. Que sirva para abrir os olhos de homens e mulheres sobre os pequenos machismos do cotidiano. Que eles entendam em quais lugares são violentos – ainda que sem perceber -, já que somos construídos em cima de uma base patriarcal”, comenta.

“Acho que quando a gente tem uma série, que atinge um público enorme, que está no streaming, onde muita gente assina e tem acesso, é sim uma maneira de fazer uma denúncia social e ir, aos poucos, mudando essa realidade”, acrescenta.

Abaixo, você confere a entrevista completa:

Elisa, como começou a sua relação com a arte, seja o canto, a dança, teatro e toda essa movimentação corporal?

Eu venho do interior do Rio Grande do Sul, de uma cidade bem pequenininha mesmo. E apesar de não ter teatro, tínhamos diversas outras manifestações artísticas e eu sempre tive muita vontade de participar dessas atividades. Comecei no coral, dancei ballet e jazz.

Lá, por ter uma tradição muito forte com a cultura gaúcha, temos o CTG (Centro de Tradições Gaúchas), onde eu comecei a cantar, me apresentar e abrir esse espaço artístico. Na época eu ainda não entendia muito o que era isso e nem para onde eu queria ir, mas sabia que tinha uma comunicação, por meio da arte, que me interessava muito.

Depois dos meus 15 anos, passei e entender que era uma coisa séria e queria seguir com aquilo. Descobri uma faculdade de Teatro em Porto Alegre e foi o que eu fiz. Terminei o Ensino Médio, prestei vestibular para Artes Cênicas e fui estudar. Em 2010, vim para São Paulo e continuei minha atuação por aqui com o audiovisual. Mas acho que se você me perguntar como começou foi ali, no interior, com as possibilidades que eu tinha no cenário artístico.

E como foi o preparo para viver a Anita em “Bom dia, Verônica”?

Na segunda temporada a gente estava bem no meio da pandemia de Covid-19 e não fizemos muitas atividades presenciais, mas toda a preparação que eu tive no início, serviu muito para essa nova etapa.

Visitei a Delegacia de Homicídios de São Paulo com a Ilana Casoy que tem uma porta de entrada muito grande por lá, principalmente pelos livros que ela já escreveu sobre esse universo e fui apresentada para muitas delegadas e delegados.

Passamos um dia inteiro fazendo uma espécie de laboratório. Pude observar como essas delegadas falavam, se vestiam, se portavam e perguntar sobre o dia a dia. Depois, fiz aula de tiro, eu a Tainá Müller, para aprender mesmo toda essa relação com a arma e fizemos toda uma preparação das duas personagens juntas.

Você já interpretou muitas personagens fortes e que se relacionam entre si, principalmente por estarem sempre colocando o dedo na ferida. Você acha que isso também diz muito sobre você enquanto mulher e a sua visão de mundo?

Nossa, com certeza! Eu sinto que eu comecei esse movimento muito forte para mim, enquanto artista, em 2016, quando eu estreei o solo sobre a Silva Plath. Era justamente o ano do impeachment da Dilma e eu lembro que isso foi ficando muito forte, com as pessoas entendendo aquele momento.

Eu achei o movimento altamente misógino e a partir dali entendi isso como um compromisso mesmo. Acho que a arte é política por natureza, mas, se a gente puder fazer uma denúncia social, que abra os olhos das pessoas para assuntos urgentes, vejo como uma maneira de construir uma sociedade melhor enquanto artista.

Como tem sido o retorno do público nas redes sociais, principalmente de mulheres compartilhando histórias e vivências com você?

Desde a primeira temporada foi um retorno muito massivo, até mesmo por ser uma produção policial, que abrange um grande público. Mas eu acho que por tratar de violência contra mulher, pegou em um ponto de específico.

O Brasil lida muito com essa questão e eu recebi mensagens muito tocantes de mulheres agradecendo por estarmos falando desse assunto, compartilhando histórias de como foi importante ver a série, se entender nesse lugar de opressão e pensar em formas de sair daquilo.

Quando a gente tem esse tipo de retorno tão pessoal é sinal de que em algum lugar chegou e eu acho que se chegou em uma mulher, para mim, é sinal que a gente fez o nosso trabalho. É um trabalho de formiguinha, é um trabalho de conscientização.

Vivendo uma experiência tão intensa, ainda mais em meio ao caos da pandemia de Covid-19, teve alguma cena específica que te marcou muito?

Eu acho que a cena em que a Verônica desarma a Anita e traz aquela informação de que sabe quem ela é, sabe o nome verdadeiro e sabe que ela também foi uma vítima, foi uma cena que mexeu comigo.

Ela precisava desmontar de alguma maneira. Ali foi o primeiro momento em que a Anita demonstrou algum tipo de fragilidade e eu me conectei um pouco com esse momento pessoal de me perceber vítima de algo.

Acho que todas as mulheres já passaram por algum tipo de assédio, em diferentes níveis, então sim, eu já tive as minhas experiências e foi bem dolorido me conectar com isso.

Às vezes você sabe que está em uma situação que deveria sair, que não está certo, e não tem força suficiente. Eu passei por isso e quando caiu a ficha, foi um momento muito difícil. Eu precisei me perdoar por ter ficado ali por tanto tempo em uma relação abusiva. Então acho que tem um misto da Anita perceber aquilo e entender que, de alguma maneira, ela precisava se perdoar para poder seguir em frente e ajudar a Verônica.

E qual conselho a Elisa daria para a Anita?

Acho que o recado que eu daria para Anita é de que ela estava no caminho certo. De que ela estava fazendo a coisa certa. Uma pena que o destino interrompeu esse fluxo, mas eu acho que eu diria assim: “Era isso aí, mana! Esse era o caminho” (risos).

Agora falando sobre projetos futuros, tem alguma vontade de se jogar em uma experiência bem diferente? Indo além do streaming, do teatro? Um papel dos sonhos em TV aberta, por exemplo?

Além de fazer uma novela, eu gostaria de interpretar uma personagem real, por exemplo. Acho que seria um desafio interessante. Pensando um pouco sobre gêneros que a gente está descobrindo no Brasil, seria legal fazer uma série de terror. Algo assustador, com climas e efeitos. Acho que é uma indústria que está se construindo e logo a gente vai conseguir fazer.

Para finalizar, vamos de bate bola. Uma palavra, uma resposta.

Um amor?

Guto, meu companheiro.

Uma música?

Ninguém Perguntou Por Você – Letrux

3 mulheres inspiradoras?

Minha mãe, Sirlei, Fernanda Montenegro e a Andréa Beltrão.

Olhando todos os passinhos que você trilhou até aqui, o que diria para Elisa de 10 anos atrás?

Eu acho que eu diria para ela ter um pouco de paciência e acreditar mais nela. Eu acho que quando a gente é jovem, tem muita ansiedade de que as coisas aconteçam e, às vezes, por essa ansiedade, a gente acaba quase atropelando uma coisa que é muito própria da juventude, é uma coisa orgânica, natural. As coisas acontecem quando a gente faz com honestidade e com a mais pura sinceridade.

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